UM

Agora podeis tratar-me
como quiserdes:
não sou feliz nem sou triste,
humilde nem orgulhoso
– não sou terrestre.
Agora sei que este corpo,
insuficiente, em que assiste
remota fala,
mui docemente se perde
nos ares, como o segredo
que a vida exala.

E seu destino é ir mais longe,
tão longe, enfim, como a exata
alma, por onde
se pode ser livre e isento,
sem atos além do sonho,
dono de nada,

mas sem desejo e sem medo,
e entre os acontecimentos
tão sossegado!
Agora podeis mirar-me
enquanto eu próprio me aguardo,
pois volto e chego,
por muito que surpreendido
com os seus encontros na terra
seja o Aeronauta.

[Cecília Meireles, O Aeronauta, 2001, p. 728]

e, ainda no meio, aprendi. ser, estar, permanecer. aprendi sendo – sendo uma reserva invertida de onde odiar. o onde é dentro. o fora eu só amo. o fora é o refúgio do facil.
aprendi. olhei o relógio. cumprimentei o porteiro. limpei os óculos. retoquei o batom vermelho.
allora, che cosa vuoi sapere? cosa vuoi che faccia io?
o meio não era o fim.

bom mesmo é fitar a janela
e então não há madeira, aço, vidro
(nichts)
não há nada que não seja um todo junto
(alle)
corpo-paisagem
cores-ponte
casa do eu.

rastro de vento
canto da carne que passa
recado de quem se lançou sem (se) partir
de quem insistiu em prosseguir voando inteiro
de quem arrodiou a cabeça de ver um mundo
e perdeu os próprios olhos de vista sem perder o ver
pois olhos são simples corpo
e ver é algo que não pode ser tocado
corpo é troca, mas é desgaste
ver é o perpetuar
ver é o saber de si

quando vi por fora da janela, havia um rio
e havia um eu – pobre observador observado
havia a ameaça do movimento eterno
e havia um pouco mais de saber do que ano atrás.

[me tornando eu ali apenas o alcance do que vejo, fez-se eterna a cinestesia de jamais perder o olhar.
eu estava ali, o tempo todo, apenas pensando. eu estava ali, o tempo todo, apenas observando.
eu fui, eu vou. mas eu continuo.

(estar aqui é te dizer muito obrigada. estar aqui é te dizer muito obrigada. estar aqui é te dizer muito obrigada. vielen, vielen, vielen).17240026_10212507157412877_3166205549808401507_o

hoje é só um amanhecido dia sem saber em que dia nós simplesmente amanhecemos conscientemente pela primeira vez.
o sol chama, no maior dos silêncios, e se despede, na maior das misturas dos sons das tantas ruas que nos fazem o imenso cercado do cotidiano – e são essas as melodias inexoráveis de todos nós.
é de ocupar e pintar parede, teto e chão, é de rasgar uma cortina, é de uma sombra-contraste qualquer que modela meio dourada e meio fugida nosso corpo e nossos demais espaços de existir, enquanto se anuncia.
é qualquer coisa que de revele, pois amanhecer é revelar um quer-queira-quer-não. é qualquer coisa que se obscureça, pois amanhecer também sabe ser um esconder e um ou outro esquecer. é o retorno ao te receber de volta ou um finito que concretiza os nunca-mais.
eu sei ser manhã, com cheiro de café, manteiga no pão careca, e a mãe chamando pra se juntar à mesa até que desista e permita a cama. eu sei ser tarde, de patins nas ruas após a escola, com violão nas costas, jônio, dórico e calo de cordas nas mãos. eu sei ser tarde. sei ser tarde demais.

(dia – gnósticos II).

é como sentir aqueles flashs d’água passarem direto por todo o corpo, deixarem o gelo no peito, e evaporarem ao final, já que o corpo não existe. é um lento apagar das luzes de um cômodo de uma casa sem tetos e sem paredes. é como um imã quilômetros acima da cabeça que força para sugar todo o espírito, sem que ele ainda lá esteja, sem que talvez ao menos exista. é a certeza de que algo da vida naquele momento me estaria sendo tirado, sendo que nada mais sequer havia. é como se alguém viesse buscar as poucas sobras, e, ao mesmo tempo em que as colhe, a terra já estivesse arrasada. ao mesmo tempo, ao exato mesmo tempo, é o sentir o pouco e o nada.
você sempre me pergunta como é, você sempre me pede que descreva, você sempre me pede que enfrente, você sempre argumenta pela inexistência disso tudo, e eu, de tanto ser acompanhado por esta progressiva ausência de sensações, talvez esteja só explicando o que é absolutamente normalizado, o que desconheço de tão constante e, ao mesmo tempo – pois tudo se trata de tanta coisa ao mesmo tempo – eu talvez nem esteja mais aqui.