o teu lado
doado
agora, renegado
 
o teu chão
movido
ontem, um brilho
 
a tua frente,
doída
anteontem, querida.
 
minha querida, oi.
 
uma voz, vinda de algum mistério do nosso lugar de dentro
ou escorrida de alguma revelação do fora do nosso lugar
tanto faz, se fez
chamou-nos no canto e disse, quase como quem ordena
que é pra nós aprendemos a refazer o que pensamos em fazer do outro
a refazer o que fazem de nós.
 
 
 
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éramos deuses. éramos os deuses que, como é sabido, se fizeram surgir no território dos raios de sol e seus reflexos nos mares de água adocicada, no ponto mais alto do que o espaço de existência destes demais que nos cercam sem nos entenderem. em toda nossa onisciência, nos desconhecíamos. eis que se fez verbo o calendário de descobrimentos que desenvolve qualquer mito. quinta era o olhar. sexta era o toque. sábado era o descanso. domingo, o som. e vimos que era bom. e vimos que havia ainda mais por não saber: éramos a deusa.

 

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aos sentimentos que dizemos sem nome e sem nada além de tristes, eles tem nomes, os seres sídes. aos sentimentos que chamamos pelo nome e de alegria, sem nada além da brisa e euforia, eles também os tem, os sídes. eles sempre tem nomes. e com a troca do batismo pela morte. eles sempre tem nossos nomes. e ser chamado é querer o cuidado de ser um pós-abandonado. eles não fazem ideias. cídes, cídes…

 

 

Maria Helena Zamora

Com todos esses tanques nas ruas, me sinto num filme de quinta sobre a ditadura.

 

 

há um pôr-do-sol, cedo em tempo de inverno
praça, paleta de cores, a moça é foto
e há tanques nas ruas
há a criança que pede um sorvete, há o food truck
mascarpone, straccilatella, zambaione
e há tanques nas ruas
há uma bossa tímida, tarde em tempo de festa
2017, 1970, 1977, em mais sets do que guarda a memória
ou a criatividade de qualquer diretor da arte do fuzil nas mãos
há tanques nas ruas

o cotidiano é um abuso meio cenário
e pelo fundo do cenário
lá no fundo do teu cenário
são de se ver as ruas

nas ruas
há tanques
nas tuas
há tantos
nas nossas
ataques.

 

 

(31 jul. tanques na cidade do rio de janeiro.)

 

 

 

a menina não esperava chegar em casa. abria os pacotinhos todos, alguns ainda no corredor do supermercado. tão logo quanto podia, saía se sujando toda e fazendo “creck creck” com pães e biscoitos. as sacolas pareciam só poder atingir seu destino depois de já completamente reviradas.
por algum motivo, ela sempre se adiantava. a ansiedade lhe garantia, desde sempre, um lugar à frente do tempo do dia, e algo desconhecido dentro de si lhe garantia, por sua vez, um lugar à frente do seu próprio tempo. a menina praticava constantemente o saber ser antes, e era sempre a menina mais menina de todas as rodas em que se colocava.
a mãe inserira práticas estranhas que, por algum motivo, foram aceitas e tomadas como bom vício. xarope de beterraba concentrada no açúcar, pepino na água de vinagre e limão, peras ainda verdes cortadas milimetricamente em cubos. havia ser menina, havia ser mãe, havia uma distância respeitável e uma proximidade de universos em constante e inevitável troca.
mas o tempo resolveu se reapresentar como o primeiro que sempre é. colocou a menina de frente para o tempo que teria pela frente, e ele já nem era tão infinito assim. toda ida ao supermercado passou a ser calculada e todo “creck” em público evitado. não havia mais quem lhe inserisse aqueles vícios, e os que criara por conta própria – desinteressante conta própria – nem de longe eram tão curiosos. a menina que sempre se adiantava se rendeu ao eterno retorno dos atrasos e entendeu que o tempo não tem frente, apenas trás.
apercebida de uma ou outra dessas tantas coisas, ele fez com que ela se desconhecesse da própria meninice, num lapso desses que dura coisa que se sente sem se saber contar direito quanto ou quando. fez com que ela passasse a sentir, em grande constância, que estava atrás, atrás, atrás. que era tarde, que era tarde, que era tarde.
meninas e meninos, quando sequestrados pelo pior dos entendimentos, se tornam coisa que é bom que não se nomeie.
a vida, por sua vez, se torna história. e é bom que ela seja boa.

 

(24 de jul.)

há algo de muito solitário nesse processo de escrita na pós-graduação. quantas vezes já não ouvimos alguém falar sobre isso? e é isso mesmo. exatamente isso. e que continuemos falando.
no fim, é você com você mesmo na cadeira, de frente pro computador, pros livros, pros cadernos. é você mesmo e aquela soma de coragem de enviar aquele email, aquele inbox nas redes, aquela mensagem no whats e etc. pedindo uma dica de texto, uma mão pra acessar mais de perto o objeto, uma entrevista, uma lidinha no projeto ou naquele capítulo.
no fim, pra além do receio de desapontar leitores, orientadores, companheiros, familiares, é necessário superar algo muito mais elementar: o medo de desapontar a si mesmo. talvez o que haja de mais difícil em todo esse período seja esse processo de convencer a si mesmo de que a ideia até que é legal, de que pouco importa se já há quem falou algo sobre, de que o texto até que tá caminhando relativamente bem, de que você não vai conseguir ler e escrever tudo o que queria e que isso é ok, de que você está em processo de crescimento e não precisa se comparar tanto com as suas referências… de que você não precisa se desesperar, esconder tudo, apagar tudo, pensar em desistir, achar tudo uma grande merda, se machucar tanto.

chega a ser cômico ser pesquisador do campo da segurança e não se sentir seguro com as próprias ideias, com as próprias construções, escolhas de referências, e se ver cheio de medo de se apresentar ao mundo. mas acontece.

hoje uma amiga disse que a gente precisa cuidar pra que isso seja uma fase, e não um estado.
e é isso mesmo. fase é algo que faz a gente crescer depois que passa. estado é algo que nos diminui à estagnação.
a gente vai cuidando.
e seja o que tiver que ser.

 

16 jun.

167.

O meu desejo é fugir. Fugir ao que conheço, fugir ao que é meu, fugir ao que amo. Desejo partir — não para as Índias impossíveis, ou para as grandes ilhas ao Sul de tudo, mas para o lugar qualquer — aldeia ou ermo — que tenha em si o não ser este lugar. Quero não ver mais estes rostos, estes hábitos e estes dias. Quero repousar, alheio, do meu fingimento orgânico. Quero sentir o sono chegar como vida, e não como repouso. Uma cabana à beira-mar, uma caverna, até, no socalco rugoso de uma serra, me pode dar isto. Infelizmente, só a minha vontade mo não pode dar.

(…)

Eu mesmo, que acabo de dizer que desejaria a cabana ou caverna onde estivesse livre da monotonia de tudo, que é a de mim, ousaria eu partir para essa cabana ou caverna, sabendo, por conhecimento, que, pois que a monotonia é de mim, a haveria sempre de ter comigo? Eu mesmo, que sufoco onde estou e porque estou, onde respiraria melhor, se a doença é dos meus pulmões e não das coisas que me cercam?

 

( o livro do desassossego).

há quem diga que pessoas são lugares, desses pra onde alguém pode fugir quando o seu próprio lugar não bem o comporta. há quem diga que lugares são pessoas, que saudades são pessoas e que, portanto, saudades são lugares, desses que alguém constrói, em algum espaço de si, pra alguém de quando em vez, quando os lugares de ambas não bem as comportam. havia um caminhante que se via sempre na necessidade de fugir. o mapa era longo e era um só: lugar-saudade-pessoa. mas o mapa também sabia ser curto. era do tamanho da sua própria altura, do tamanho da sua própria largura, do tamanho do seu próprio passo.

 

18. jun.