Klegein escreve, de algum lugar no mundo.

Faz anos desde aquele instante que, sendo apenas teu, meu também foi. Eu te escrevo por que sei que, sendo eu um lapso de memória e um exercício do inesperado pela incredulidade, minhas palavras não poderão fazer sentido. Ao menos não o sentido esperado por ti, que espera por esperar sempre o conhecido.

Faz anos… Os anos se fazem sem nunca, diante dos diferenciais que neles se constroem, se refazerem totalmente, ainda que sejam, sempre, anos; marcações de relógio. E o que houve com aquele relógio de bolso que tanto controlava teu dia? Ah, sim, é verdade. Ele nunca existiu. Não em outro lugar que não fosse o campo da vontade. Mas e a bússola que deveria te dar sorte? Por que continua escondida no fundo da tua gaveta?

Eu nasci quando você se perguntou “e toda aquela parte intocável, inalterável, de todos nós?”, a resposta pairou, pirou, mas você conseguiu vomitar seus primeiros ensaios de si mesma e vitimar o que deste eterno processo surgiu. Surgi. Nasci e, no mesmo momento, apoderei-me de uma autonomia que tu não me destes, o que significa que eu, de fato, tornei-me autônoma de ti. E tu ainda não podes ser, não podes ser! Não podes ser-me.

Por estes dias caminhei em meio ao gelo. As flores quebravam-se como se fosse tão cristais de gelo quanto aqueles responsáveis pela sua quebra. Na verdade as flores, e este evento de quebra de flores, talvez nunca tenham existido. Já as folhas existem, sim! Assisto da janela, todos os dias, o derretimento barato de todas elas, que não são capazes de conviver com o contraste de cores e de temperatura; com esta corrida de cores e temperaturas da noite e do dia na qual se aposta a vida das folhas. As árvores, novamente, sendo um pouco mais resistentes, ficam sozinhas.

Tentas deixar transparecer que das flores não gostas, como que para desfazer o sentimentalismo que te rodeia. Cores, cores! Em meio à tua coleção de fotografias em preto e branco tentas deixar transparecer que cores não queres para ti, para o que eternalizas e internalizas. Mas sei que, de alguma forma, as flores te fazem sorrir, eis que, quando as toca, fazes com o mesmo cuidado e delicadeza que reservas para as palavras.

O apartamento foi obtido de forma ad corpus; pouco importam, portanto, suas medidas de, talvez, metade de uns 101,01 metros quadrados. O que importa é que os cômodos formam quadrados perfeitos, com cantos perfeitos, de forma que eu posso olhar para a mesma distância, em medidas, quando estiver neles. E busco neles sempre estar. Nos cantos eu canto, sem microfone, sem platéia, sem nada.

Como você pode perceber, o tamanho da habitação é tão grande quanto o necessário para que a cada passo eu possa reencontrar eu mesma e, consequentemente, contigo, sem que nunca me perca, te perca. Sim, eu vivo na singularidade, exatamente na singularidade, num centro de intensa concentração de massa por volume, de onde partiu o universo e de onde continua a expandir-se, desde o seu início – ainda que não se saiba se teve um início ou se sempre, simplesmente, foi – e até hoje. Vivo no eterno retorno do eterno universo. E não há vista melhor para as estrelas do que a vista da minha janela.

As paredes! Eu sei que irias adorar estas paredes. Há frases e frases e frases. Parecem brotar sozinhas! Não há nada completamente branco aqui, mas, quando enjôo do que vejo escrito, consigo ver branco; consigo assim imaginar. Consigo imaginar também que estas frases vieram de mim, embora tenham vindo de todos os cantos do mundo e de todos os cantos da parte de dentro de algumas seletas pessoas. Não era assim que tu querias?

Eu sei. Tu varias, intercalas o cheio e o vazio dentro de ti e, também, fora de ti, no mundo. Mesmo por que tu não sabes separar bem aquilo que tens de exterior e interior. Eu sei. Eu te conheço. Foi dos teus paradoxos que surgi e é isto que sou, embora seja eu nada mais e nada menos do que aquilo que tu és para ti mesma. Lembra-te: só não somos apenas tu por que tu não podes ser-te a todo momento, diante de todas as circunstâncias.

 (…)

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