Abgar Renault.

7

Este poema exigiu 7 folhas de papel. Para escrevê-lo já fumei raivosamente 7 cigarros e rasguei-o 7 vezes. 7 é um mau número: é o número 13 da minha vida. Segundo várias aritméticas, não é divisível por 2, e eu tenho horror a todos os números (e a todas as coisas) não divisíveis por 2. Sexta-feira, 7… Isto hoje não acaba bem… Vai a chuva ficar chovendo para sempre. O meu relógio vai continuar disparado, marcando horas inexistentes. Ah se os ponteiros andassem para trás! Ah se ao menos a chuva chovesse para cima e eu fizesse destes nulos versos uma folha noturna e molhada!

(Abgar Renault, A outra face da lua, 1983)

Retorno de Passárgada

Do que vi, do que fiz, do que compus, do que andei nos palácios, nas ilhas, nas selvas, nos astros da rainha do rei, só ficou este repleto silêncio, a unânime solidão que escorre, negro luar, de dentro para fora, e desce a rampa onde enterrei a aurora. De tudo, na tristeza de cinza de cada mão, trouxe uma flor defunta e, na profundidade do meu chão, dura lágrima que não usarei.

(Abgar Renault, A outra face da lua, 1983)

Depois Para onde irão depois as coisas que aprendi? Por exemplo: aquele cálculo de pi. Que será feito daqueles restos de saudade, destes medos antigos sempre novos? Em que voltas desaparecerão os sonhos que enfeitaram de flores o quintal antigo? Por que caminhos irão andar aqueles ágeis pés? Sobretudo, como se esvaziará de som a velha voz e onde afundará o último verde daquela flama esguia?

(Abgar Renault, Obra poética, 1990).

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