O mal sagrado de Dostoiévski.

O mal sagrado de Dostoiévski
A obra do escritor russo é repleta de detalhes que revelam a doença de que ele sofria: a epilepsia. Seus personagens apresentam sintomas como a “aura extática” (sensação de tocar o absoluto), e preocupação intensa com a moral, Deus e o destino.
por Sebastien Dieguez

Desde o começo de sua carreira de escritor, Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (1821-1888) sofreu de uma epilepsia que não cessa de fascinar os críticos literários e médicos. Um leitor atento encontrará ao longo de sua obra os traços deixados pela epilepsia – o “grande mal”, como ela já foi chamada.

Numa época em que a doença ainda era pouco conhecida, o escritor oferecia, por meio de alguns personagens, uma descrição muito precisa dos sintomas mais estranhos que ela suscita, em especial as crises místicas. Por outro lado, os conhecimentos modernos sobre o tipo de distúrbio de que ele aparentemente sofria, a epilepsia do lobo temporal, lançam nova luz sobre a personalidade do autor e o conteúdo de sua obra.

Filho de um pai despótico e violento, médico do exército, e de uma mãe debilitada pela tuberculose, o jovem Dostoiévski recebeu educação rígida, antes de ingressar, aos 16 anos, na escola superior militar de São Petersburgo, onde seguiu o curso de engenharia militar. Seu pai morre nessa época, possivelmente de uma apoplexia, mas o tirano pode ter sido assassinado por seus subordinados. Se o jovem estudante ainda não sofria crises epilépticas, sua saúde já se mostrava frágil. Era emocionalmente instável, hipocondríaco e havia apresentado ao menos um episódio de alucinação auditiva, uma afonia passageira e dores de cabeça.
Além disso, já conhecia a miséria financeira. Ele então visa com fervor a literatura e aos 25 anos publica seu primeiro romance, Os pobres diabos , que logo obtém grande sucesso. Infelizmente, as publicações seguintes fracassam, mesmo o notável O duplo. Ele então se enche de dívidas e afunda na depressão.

Pior ainda, será preso pela polícia imperial em companhia de outros membros do minúsculo grupo de estudantes com aspirações revolucionárias que freqüenta na época. Depois de oito meses de prisão, é condenado à morte. No dia da execução, os condenados são amarrados aos postes, os soldados apontam para eles, mas… Não atiram. O czar comutara a pena de morte por trabalhos forçados. A proximidade da morte permanece como uma espécie de encenação. Pode-se imaginar o impacto que um simulacro tão sinistro teve sobre um ser já fragilizado.
Quatro anos de prisão siberiana o aguardavam, período que o escritor descreveria como “um tempo em que fui enterrado vivo e trancado numa tumba”. Ali, descobrirá a promiscuidade com os outros detentos e a “alma russa” que explora em suas obras. Ele também encontrará a Deus: os Evangelhos são a única leitura permitida aos prisioneiros.

Dostoiévski passa pelas primeiras crises generalizadas, descritas em sua correspondência e nos relatórios do médico militar. Livre, ele ainda precisou servir num regimento de infantaria na hostil Sibéria. Ao fim deste exílio forçado de dez anos, pôde enfim retomar a escrita. Mas as coisas não melhoram muito no plano pessoal: miséria, morte de sua primeira mulher, morte de seu irmão e confidente Mikhail, desacordo na família, destruidora paixão pelo jogo, credores que o perseguem, morte de dois filhos e uma saúde cada vez mais cambaleante, com crises mais e mais graves e freqüentes.

Um mal salvador?
Que lugar ocupa a epilepsia nessa enxurrada de problemas e golpes de azar? Paradoxalmente, talvez tenha sido a doença a salvar Dostoiévski da penúria mental. Foi possível reconstruir a influência das crises sobre sua obra por meio de múltiplas fontes. Sua correspondência, seu diário, o testemunho de pessoas próximas e dos médicos que o examinaram forneceram informações preciosas, mas as indicações mais reveladoras provêm dos personagens de seus romances, através dos quais ele fala e que nos fazem intuir o caráter salvador de seu mal.

Para compreender o impacto da epilepsia sobre a vida de Dostoiévski, lembremos o que é essa doença. A epilepsia não se resume a uma simples perda da consciência acompanhada de espuma nos lábios e convulsões. Estas são as “crises generalizadas”, também chamadas de crises de grande mal, das quais Dostoiévski efetivamente sofria, mas que não constituem o aspecto mais interessante de sua patologia. De modo geral, a epilepsia representa uma disfunção dos mecanismos de transmissão das células nervosas com causas diversas: predisposição genética, seqüela de um traumatismo, alcoolismo, tumor.
Normalmente, os neurônios têm propriedades excitantes e inibidoras que lhes permitem se comunicar e se organizar em redes complexas. Quando acontece uma crise epiléptica, o processo de excitação se acelera e a transmissão se propaga de um neurônio a outro sem que nada possa pará-lo. Segue-se uma sincronização deletéria, uma “tempestade cerebral” da atividade cortical que, caso se estenda por todo o cérebro, produz crise generalizada com perda de consciência, podendo levar ao coma.

O cérebro suporta que apenas um número determinado de seus componentes funcione ao mesmo tempo. Entretanto, diversas crises resultam de sincronizações parciais, limitadas a certas regiões do cérebro, sem chegar à tempestade generalizada. Tais crises, durante as quais o paciente pode continuar consciente e de pé, são chamadas de “focais” ou “parciais”. Os sintomas dependem então das regiões afetadas e apresentam grande variedade: alucinações auditivas, olfativas ou visuais, ações involuntárias, dores, sensações viscerais, torpor, paralisia, distúrbios de elocução e até orgasmos.

Um dos grandes méritos do neurologista inglês John Hughlings Jackson, na segunda metade do século XIX, foi elencar as epilepsias cujas repercussões são de ordem unicamente psicológica: o paciente permanece consciente, mas sofre alterações impressionantes nos processos mentais. Ele pode ficar num estado de sonho acordado ou sujeito a episódios de déjà vu. Suas idéias podem fugir assim que aparecem ou, ao contrário, seu campo de consciência pode ficar focado em uma idéia ou um problema obsessivo. As preocupações do paciente são então de natureza puramente intelectual ou moral. A vida afetiva também é afetada, e sensações de medo, cólera ou angústia podem aparecer.

Mais recentemente, foram notadas sensações positivas, em que o sujeito é inundado por experiências de alegria, plenitude e satifação existencial, muitas vezes com clara conotação mística ou religiosa. Fala-se então de crise ou aura extática, sendo que “aura” designa fenômenos que anunciam a chegada iminente da crise. São as sensações positivas que Dostoiévski melhor descreveu em sua obra, e podemos atribuir a ele o mérito de ter chamado a atenção dos médicos para elas. Essas auras costumam preceder uma crise de grande mal, que chamamos, portanto, de secundariamente generalizada.

Eis como Dostoiévski descreve as auras de Míchkin, personagem central de O idiota e, certamente, o epiléptico mais célebre da literatura: “Ele sonhou com a fase em que se anunciavam os ataques epilépticos quando estes o surpreendiam em estado de vigília. Em plena crise de angústia, embrutecimento e opressão, parecia-lhe de repente que seu cérebro se agitava e que suas forças vitais tomavam um prodigioso impulso. Nesses instantes rápidos como um relâmpago, o sentimento da vida e da consciência se decuplicavam nele. Seu espírito e seu coração se iluminavam com uma claridade intensa; todas as suas emoções, todas as suas dúvidas, todas as suas preocupações se acalmavam ao mesmo tempo para se converterem numa serenidade soberana, feita de alegria luminosa, de harmonia e de esperança, em favor da qual sua razão se elevava à compreensão das causas finais. (…) Estes instantes, para defini-los numa palavra, se caracterizavam por uma fulguração da consciência e por uma suprema exaltação da emotividade subjetiva. Se nesse segundo, isto é, no último período de consciência antes do acesso, ele tivesse tempo de dizer a si mesmo clara e deliberadamente: \\’Sim, por este momento dar-se-ia toda uma vida\\’, é porque, para ele, este momento valeria de fato toda uma vida”.
Instantes de plenitude
Mais adiante no romance, a doença salvará Míchkin de um assassinato. No momento em que seu rival Rogojin vai golpeá-lo com uma faca, Míchkin é aterrado por uma crise. Desesperado, Rogojin foge “como um louco”.

Vemos que a epilepsia de que sofrem certos personagens é anedota pitoresca mas, ao contrário, cumpre função na trama. Do mesmo modo, em Os irmãos Karamazov, Smerdiakov assassina seu pai simulando uma crise que lhe serviria de álibi. Depois de cometer a atrocidade, porém, ele sofre uma crise muito violenta, é tomado de loucura e se suicida.

Outro personagem notável, Kirilov, o ateu místico e suicida de Os demônios, faz a seguinte revelação: “Há instantes, duram cinco ou sei segundos, em que sentimos de repente a presença da harmonia eterna, nós a atingimos. Não é uma coisa terrestre: não quero dizer que seja celeste, mas que o homem em seu aspecto terrestre é incapaz de suportar. Ele precisa se transformar fisicamente ou morrer. É um sentimento claro, indiscutível, absoluto. Abarcamos de repente a natureza inteira e dizemos: \\’Sim, é exatamente isso, é verdade\\’. Não é enternecimento… é outra coisa, é alegria. (…) Não é nem mesmo amor; oh! é superior ao amor. O mais fantástico é que é assustadoramente claro. E vem uma alegria tão imensa junto! Se ela durasse mais de cinco segundos, a alma não suportaria e talvez desaparecesse. Nesses cinco segundos eu vivo toda uma vida e por eles daria toda a minha vida, pois eles valem isso. Um pouco embaraçado, seu interlocutor pergunta: \\’Você não é epiléptico?\\’. Kirilov responde que não, mas o outro o previne: \\’Pois vai ser. Cuidado, Kirilov, ouvi dizer que era precisamente assim que começava a epilepsia. Um epiléptico descreveu-me em detalhes as sensações que precediam suas crises: era exatamente o seu estado; ele também falava de cinco segundos e dizia que era impossível suportar aquilo por mais tempo. (…) Cuidado com a epilepsia, Kirilov\\’ “.

Diversas fontes confirmam que o próprio Dostoiévski tinha um discurso muitíssimo semelhante aos que emprestava a Míchkin e Kirilov, insistindo no fato de que “nesses instantes” ele podia “realmente sentir a presença de Deus”, se sentia “em perfeita harmonia consigo mesmo e com todo o universo” e reiterava a famosa asserção de que qualquer um trocaria a vida por esses poucos segundos de plenitude.

Os neurologistas hoje concordam em diagnosticar em Dostoiévski uma epilepsia do lobo temporal com crises secundariamente generalizadas.
Afetando primeiro as partes profundas dos lobos temporais, as descargas sincrônicas produzem a aura extática e outros sintomas, propagando-se em seguida para o restante do cérebro, provocando perda de consciência e convulsões. A epilepsia de origem temporal pode produzir efeitos muito variados, e Dostoiévski chegou a escrever a seu irmão que ele sofria de “todos os tipos de crise”. Entre elas, são relevantes os estranhos fenômenos de automatismo, durante os quais o paciente realiza ações complexas sem conhecimento delas. Assim, Dostoiévski podia, num estado próximo do sonambulismo, enrolar diversos cigarros seguidos ou se levantar para abrir uma janela. Numa cena estranha de Os demônios o conspirador Starvoguin pega de repente um homem respeitável pelo nariz e o conduz assim por uma reunião social, gesto absurdo que logo em seguida ele é incapaz de explicar.

Certas manifestações podem aparecer antes mesmo da chegada da crise. Além da crise extática, não se exclui que Dostoiévski tenha sofrido outras manifestações neuropsiquiátricas que ele descreve com perfeição. Em sua obra encontramos experiências alucinatórias diversas, confusões acerca da identidade das pessoas, impressões de duplicação e ilusão de ser possuído por uma força demoníaca. Num episódio fascinante de O idiota, em que o príncipe Míchkin erra pelas ruas de São Petersburgo, o escritor nos dá uma excelente análise clínica das distorções de pensamento de que sofrem alguns epilépticos temporais antes de uma crise: estado alterado, convicção, idéia repentina, perseguição, obsessão, impulso de fervor, clarividência fugidia. Essas são as impressões “nuas”, vividas como tais, sem que algum conteúdo definível se possa aplicar a elas.

De fonte confiável, sabe-se também que Dostoiévski emitia sempre um estranho grito antes de perder a consciência, um longo estertor que sua mulher temia acima de tudo e que qualificava de inumano.

Às vezes levava vários dias até que ele se refizesse completamente de uma crise, e durante esse tempo ele sofria de sintomas que chamamos de pós-críticos. Ele ficava então confuso, muitas vezes fora de contato, incapaz de se exprimir ou de escrever corretamente. Além disso, sofria de distúrbios de memória e de uma intensa depressão, que pode ser considerada como um contragolpe assustador depois de alcançar o êxtase.

Sabe-se hoje que há também uma sintomatologia interictal, um conjunto de sintomas que se manifestam entre as crises, formando um perfil de personalidade típico da epilepsia temporal. Esta noção, ainda que continue controversa, foi muitas vezes aplicada ao autor russo, a ponto de alguns neurologistas falarem em “epilepsia de Dostoiévski”: aderência excessiva a determinadas idéias, detalhes ou pessoas; tendência compulsiva a escrever; alto senso de moralidade e preocupação com questões éticas relativas ao bem e ao mal, acompanhada de idéias místicas e religiosidade; seriedade excessiva; sentimento de culpa e perseguição; grande emotividade; falta de interesse pela sexualidade; convicção num destino pessoal fora do comum.
Certamente, a obra de Dostoiévski abunda em preocupações de ordem superior, detalhadas ao extremo e obsessivamente recorrentes, muitas vezes expostas em termos idênticos nos diferentes livros. Os temas explorados pelo autor são aqueles que o obcecaram durante toda a vida: o bem e o mal, Deus e o ateísmo, liberdade e responsabilidade, crime e punição, pureza e crueldade. Sua imensa produtividade pode certamente ser qualificada de hipergráfica, ainda que a qualidade dela ultrapasse em muito a de outros pacientes epilépticos. Testemunhas do sintoma “alto senso de moralidade”, os personagens são constantemente dominados por forças que os ultrapassam, como se fossem impelidos na direção de um destino inelutável, e longas páginas são consagradas a sua tortura mental sobre o bem e o mal, o que é permitido e o que não é, a escolha entre o perdão e a vingança. Humor e desejo físico não têm lugar preponderante em sua obra.

Devemos reduzir a genialidade desse russo às descargas sincrônicas em seus lobos temporais? Sobre isso, o próprio Dostoiévski tinha opinião clara. Acima de tudo, ele desconfiava das explicações simplistas. No discurso de defesa dos Irmãos Karamazov, por exemplo, um advogado declara que a psicologia é uma “faca de dois gumes”, no sentido de que, com um pouco de habilidade, um mesmo princípio pode servir para explicar qualquer coisa e também o contrário dela. E ele diz o mesmo sobre a neurologia. Freud, por exemplo, pensava que Dostoié-vski sofria de uma histeroepilepsia, ou seja, de um distúrbio puramente neurótico (e não nervoso), sob o pretexto de que um epiléptico não poderia ser tão genial e que seus distúrbios lhe pareciam devidos antes a uma homossexualidade recalcada e ao desejo de matar o pai.

Patologia e poder criativo
Henri Gastaut, pioneiro na epileptologia francesa, era muito cético sobre a existência das auras extáticas. Ele dizia até que os médicos eram, na verdade, ludibriados pelas descrições totalmente ficcionais de Dostoiévski e que elas desde então faziam parte do folclore médico sem que ninguém tivesse pensado em questioná-las. Por outro lado, Dostoiévski era muito consciente da origem talvez mórbida de suas idéias. Eis o que ele fez o príncipe Míchkin dizer sobre o assunto: “Que importa que meu estado seja mórbido? Que importa que essa exaltação seja um fenômeno anormal, se o instante em que ela nasce, evocado e analisado por mim depois que retomo a saúde, se assevera como de uma harmonia e de uma beleza superiores, e se este instante me toma, num grau inaudito, inesperado, um sentimento de plenitude, de moderação, de apaziguamento e de fusão, num impulso de prece, com a mais alta síntese da vida?”.

E mais adiante: “Sua conclusão, isto é, o julgamento que ele fazia sobre o minuto em questão, era sem dúvida errônea, mas ele não ficava menos perturbado pela realidade de sua sensação. Com efeito, o que há de mais comprobatório que um fato real? Ora, o fato real estava lá: durante aquele minuto, ele tinha tido tempo de dizer a si mesmo que a imensa felicidade que o invadia valeria certamente toda uma vida”. Eis, portanto, a questão resolvida; a origem de seu poder criativo, de natureza epiléptica ou não, pouco importa. Mesmo que possamos nos perguntar legitimamente o que seria de um Dostoiévski que tivesse vivido em plena saúde, o que conta é a realidade do fato vivido, esta experiência inexorável que pode mudar a vida das pessoas e, mais raramente, produzir obras imortais.

– Tradução de Graziela Marcolin

Para conhecer mais
Dostoiévski – Os anos milagrosos. Joseph Frank. Edusp, 2003.

Did Fyodor Mikhailovich Dostoevsky suffer from mesial temporal lobe epilepsy? C. R. Baumann, V. P. I. Novikov, M. Regard e A. M. Siegel, em Seizure, vol. 14, págs. 324-330, 2005.

Temporal lobe epilepsy: a syndrome of sensori-limbic hyperconnection. D. M. Bear, em Cortex, vol. 15, págs. 357-384, 1979.
Sebastien Dieguez é neuropsicólogo no centro hospitalar universitário Vaudois, em Lausanne, Suíça.

http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/o_mal_sagrado_de_dostoievski_imprimir.html

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