A doença de Van Gogh.

A doença de van Gogh

É fato amplamente conhecido que a morte do pintor holandês Vincent van Gogh (1853-1890), em 29 de julho de 1890, ocorreu dois dias após uma tentativa de suicídio com um tiro no peito. Mas o que o teria levado a tirar a própria vida- Que doença atormentava um dos artistas mais brilhantes de todos os tempos- As respostas a estas perguntas nos levam a uma fascinante viagem no tempo.

O pai de van Gogh era pastor e a mãe também era protestante, o que lhe rendeu uma educação bastante rígida. Adulto, van Gogh resolve mudar-se para Paris, onde residia seu mais querido irmão, Theodorus, ou Theo. Este era marchand, e van Gogh, como não conseguiu vender os próprios quadros, talvez tenha pensado que o irmão pudesse obter sucesso em comercializar suas obras.

Ao que parece, as expectativas do pintor não se concretizaram.

Algum tempo depois, completamente desajustado mentalmente, van Gogh decide que só alcançará o sucesso se trocar a metrópole parisiense por uma cidade do interior.Escolhe então a cidadezinha de Aries, ao sul da França. Seu sonho é montar um ateliê comunitário, no qual trabalhariam com ele outros pintores. Para isso, aluga uma casa que lhe servirá também de residência.

Para ornamentar o próprio quarto, ele começa a pintar um quadro com girassóis, mas não gosta do resultado e continua pintando outros até achar um que o agrade. (Van Gogh pintou o próprio quarto mais de uma vez; numa das telas, há maior predominância do amarelo).

Noite de 23 de dezembro. Por volta das onze e meia, Paul Gauguin resolve sair da “Casa Amarela” e caminhar pelas ruas frias e desertas de Artes. Deveria estar querendo escapar um pouco da pressão exercida por van Gogh com suas constantes e abruptas alterações de humor.Paul Gauguim percebe passos atrás de si, vira-se assusta-se com a visão de um van Gogh transtornado e segurando uma navalha. Ao ouvir o grito do amigo, van Gogh gira sobre si mesmo, sai correndo e some na escuridão.

Este incidente é apenas o início de uma noite que beira a tragédia. Van Gogh vai ao prostíbulo onde mora Rachei. Ela logo percebe que a orelha esquerda do pintor está sangrando. Ele entrega um lenço ensangüentado à prostituta e lhe pede para guardá-lo com tradução da notícia “No último domingo às 11:30h da noite Vicent van Gogh, pintor nascido na Holanda , entrou na casa de tolerância nº 1, à procura de uma tal de Rachel e lhe entregou sua orelha dizendo- guarde isto cuidadosamente – após o que saiu em disparada .Informada do ocorrido, que só poderia ter sido praticado por um alienado, a polícia foi a sua casa na manhã seguinte e o encontro no seu leito quase sem sinais de vida . O infeliz foi em seguida admitido de urgência no hospício”. É que ali estava a orelha decepada pelo pintor logo depois do rápido encontro com Gauguin.

Van Gogh volta para casa. Pela manhã, avisada por Rachel, a polícia o procura na “Casa Amarela” e o encontra no quarto, sem sentidos e ensangüentado. Os policiais o removem então para o Hospital Municipal de Arles.

Mas por que van Gogh teria pensando em matar Paul Gauguin- Duas possibilidades são aventadas: em seu delírio, achava que o amigo desejava ter um romance com sua amada Rachel, ou estava com um sentimento possessivo sobre Gauguin e não queria que este cumprisse as ameaças de ir embora da “Casa Amarela”.

Aqui cabe um parêntese: no Auto-Retrato com Curativo na Orelha e Cachimbo (1889) vemos a orelha direita como sendo a mutilada, isso porque ele se pintou olhando no espelho, ou seja, a imagem está invertida.

No hospital de Arles, van Gogh é atendido pelo Dr. Félix Rey (1867-1932), que lhe sutura a orelha cortada.Em retribuição, o artista pinta O Retrato do Dr. Félix Reli e presenteia o médico com a obra. Van Gogh registrou sua passagem pelo hospital pintando também o pátio interno e a enfermaria.

É hora de nos perguntarmos: van Gogh estava realmente louco? O Dr. Félix Rey diagnosticou epilepsia psico-motora. Se era realmente essa a doença de Vincent, o que a estava agravando?

O absinto

Essa bebida foi descoberta por um médico francês que usou a infusão de absinto (Artemisia absinthium) como vermífugo, principalmente para Ascaris lumbricóides. Em seus estudos, ele percebeu que, ao se acrescentar álcool à infusão, se potencializava a ação vermicida do absinto. Isso nos lembra a história da Coca-Cola, vendida inicialmente como remédio até que alguém resolveu gaseificá-la, tornado-a um refrigerante consumido mundialmente.

Os intelectuais e artistas da época, inclusive van Gogh, elegeram então o absinto a bebida da moda. Vários pintores – dentre eles Paul Gauguin, Monet, Degas e Picasso – retrataram pessoas bebendo a “fada verde”, apelido dado à bebida esverdeada, por causa da sensação de euforia que ela provocava, assim como hoje o sinônimo de cerveja no Brasil é “loura gelada”.

O absinto é extremamente hepatotóxico e neurotóxico, daí ter agravado a loucura de van Gogh. Dentre os sintomas da intoxicação pelabebida está a “xantopsia”, ou seja, a distorção visual que leva seu usuário a ver objetos na cor amarela. Se observarmos os quadros da série “Os Girassóis”, por exemplo, veremos que a quantidade de girassóis vai aumentando e que o fundo fica mais amarelo à medida que o nível de intoxicação de van Gogh se eleva.

De Arles para Saint-Rémy-de-Provence

Os moradores de Aries estavam amedrontados com o jeito introspectivo de van Gogh e com suas fases maníacas e depressivas. Em determinados dias ele pintava muito, parecia alegre e eufórico, mas em outros sequer saía da cama. Extremamente constrangido por saber que as pessoas não o queriam na cidade, vontade que foi expressa até mesmo em um abaixo-assinado entregue ao prefeito de Arles, van Gogh recorre novamente ao irmão Theo e lhe pede que o interne numa casa de saúde localizada na cidadezinha próxima chamada Saint-Rémyde-Provence. Com a concordancia de Theo, o pintor se interna voluntariamente.

Usufruindo de liberdade para andar pelos arredores da clínica, van Gogh começa a pintar os locais por onde passeia, a própria clínica, pacientes, o enfermeiro e superintendente do hospício (Trabuc) e até mesmo a cidade.

Com a permissão de Trabuc, sai à noite para ver Saint-Rémy e pinta A Noite Estrelada (1889), uma de suas obras mais famosas. Tanto a lua quanto as estrelas ganham a cor laranja, nos fazendo crer que ele estava altamente intoxicado por absinto. Outros detalhes interessantes dessa pintura são as galáxias circunvolutas e os ciprestes agitados em forma de labaredas.

Ainda no hospício, van Gogh fica sabendo que em Auvers-sur-Oise reside um médico chamado Paul-Ferdinand Gachet, fitoterapeuta e clínico geral especializado em tratar insanos. Tanto isso é verdade que sua tese de graduação em Medicina teve como tema a “melancolia”. Van Gogh solicita alta da clínica de Saint-Rémy e, com o consentimento de Theo, segue para Auvers-sur-Oise com o objetivo de se tratar com o Dr. Gachot. Este tinha uma particularidade: não internava pacientes alienados.

Como não dispõe de dinheiro, o pintor retribui o tratamento fazendo uma água forte intitulada Retrato do Dr. Gachet (1890). * Van Gogh e o médico se identificam bastante, principalmente porque este também era pintor, marchand e admirador dos pósimpressionistas. Van Gogh também pintou, por duas vezes, Margueritte Gachet, a filha de seu médico.

Na época, os psiquiatras tratavam seus pacientes com Digitalis purpúrea, vegetal do qual é feita a digitalina, largamente usada como cardiotônico. Não é, portanto, um medicamento psiquiátrico. Ele aumenta a contratilidade cardíaca e os cardiologistas têm que usá-lo com todo o cuidado para não exceder na dose, o que pode causar intoxicação, taquicardia, palpitações , vertigens, alucinações e… “xantopsia”.

A morte

Alguns dias depois de pintar Campo de Trio com Corvos (1890), van Gogh sente-se extremamente deprimido e retorna à tarde ao campo de trigo, onde dá um tiro no peito. A bala perfura-lhe o tórax e faz um pneumotórax, mas não lesa grandes vasos. Ele consegue voltar para o quarto e se deita sem dizer nada a ninguém. Madame Ravoux, proprietária do café localizado no andar térreo do prédio onde ele está residindo, percebe sua ausência no café da manhã, vai ao quarto e o encontra moribundo. Ela chama o Dr. Gachet e comunica o ocorrido a Theo. Van Gogh é atendido, mas não resiste, sendo seu corpo sepultado em 30 de julho de 1890.

Para a posteridade, o Dr. Gachet deixou uma gravura que fez de van Gogh no leito de morte, como última homenagem ao amigo. O pintor não está de barba, como nos auto-retratos; foi banhado e cuidadosamente barbeado antes de seu corpo ser enterrado em Auvers-sur-Oise. Vinte anos depois, os ossos do irmão Theo – morto em 1891 – foram transladados para um túmulo ao lado do de van Gogh.

Cabe, por fim, ressaltar que Cornelius, irmão de van Gogh, também se suicidou e que sua irmã Wilhelmina morreu louca, internada em um hospício, reforçando a idéia de que havia um componente familiar genético na doença de van Gogh – a psicose maníaco-depressiva, hoje chamada de distúrbio bipolar do humor.

O Quarto de van Gogh (1889).Vincent van Gogh (1853-1890).Óleo sobre tela 57 x 74 cm. Museu d’Orsay (Paris)

 

 

Enfemaria do Hospital de Arles (1889).Vincent van Gogh (1853-1890).Óleo sobre tela, 74 x 92 cm.Coleção Oska Renhart (Winterthur).

Mural com réplica da obra “Noite Estrelada” (1889) de Vicent van Gogh (1853-1890), óleo sobre tela,73 x 92 cm. Museu de Arte Moderna (NovaYork).

Fonte: http://www.portalmedico.org.br/include/biblioteca_virtual/belas_artes/cap14.htm

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