A Felicidade.

“Sabe onde estou? Vim procurar uma forma de me comunicar contigo. Não sei como vim parar aqui e nem como, e nem se, conseguirei ir embora. Não sei por que escolhi este lugar, justamente este lugar, para buscar esta sempre estranha comunicação nossa, apenas nossa. Há pouco encontrei um grupo de moças conversando, sorrindo, se arrumando, manifestando satisfações com suas próprias aparências. Ouvi a conversa delas, observei seus gestos, suas expressões, sua delicadeza e sua simplicidade de ser e de sentir; senti a sua feminilidade. Pensei, a partir do que observei, que talvez eu nunca tenha sido feliz. Não! Eu nunca busquei o que elas pareciam buscar, ou pareciam já ter alcançado. Se a felicidade é tal como vi representada nesta cena, neste recorte de uma conversa satisfatória feminina, acho que nunca a experimentei. Então talvez a mim só reste suportar este estado de espírito incomum que há tanto tempo me acompanha, que há tanto tempo experimento sem saber em que categoria encaixá-lo – se felicidade, se amargura, se outro, se nenhum, se nada ou se todos ao mesmo tempo e num mesmo instante. Não posso fazer nada além de suportá-lo, pois não sei o que de diferente eu poderia fazer já que não me agradam os exemplos da tal felicidade que vejo estampada em cenas, em recortes de diálogos e exteriorizações, gestos, à fora. Felicidade, felicidade delas, felicidade para elas, para tantas outras como elas, mas, se neste formato tão claro, tão simples, tão banal, não para algumas outras pessoas como eu.”

A tal felicidade. Usualmente é a escolha de um objeto. A partir desta escolha surge uma esperança, cresce um esperar, e, então, movimenta-se toda uma busca – a busca pelo objeto escolhido. Assim, o objeto torna-se objetivo; em conjunto com a esperança, torna-se a possibilidade da felicidade. Usualmente se confunde a felicidade com um objeto pelo qual se anseia conquistar ou com a conquista em si, o ato de realizá-la, de experimentá-la. É uma confusão errônea. A felicidade não é o algo, não é palpável, não é visível ou identificável. Após o algo ser alcançado, geralmente surge uma satisfação interior – a qual interpretamos como a manifestação da felicidade ou a felicidade em si – mas esta satisfação é uma mera passagem, uma mera experimentação de um êxtase, o mero sentir o novo. Sendo assim, ela não se perpetua, não traz plenitude. Após esta falsa completude se esvanecer, surge um novo objeto de desejo, uma nova ânsia de conquista e, por fim, uma nova completude momentânea após atingi-la. E assim o processo mostra-se como infinito. A busca pela felicidade – por esta idéia de felicidade materializável,  identificável em algo – torna-se um vício tanto quanto torna-se eterna, pois há uma confusão entre coisas e estado de espírito; entre o apalpar e uma visualização – um sentir – do próprio âmago.

(John Singer Sargent Ena and Betty, Daughters of Asher and Mrs. Wertheimer, 1901).

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