O lavador de carros e o nome. O meu nome.

Há alguns dias atrás, enquanto andava pela rua onde moro, encontrei o lavador de carros. Quando eu era criança, costumava sentar no muro do prédio onde moro – desde os meus 8 anos de idade –e trocar algumas piadas com ele; jogar conversa fora durante uma tarde inteira.
Brincar com as demais crianças nunca foi algo tão presente na parte capixaba de minha infância, mesmo por que vivi – e ainda vivo, inclusive no mesmo – em apartamento e, além da falta de espaço dentro do prédio, do perigo das ruas e do pequeno contingente populacional de “crianças condôminas”, eu era assolada pela timidez, pela introspecção. Hoje já acostumei com isto e, inclusive, conheço várias pessoas que seguem esta mesma “linha de personalidade”. Quando criança, porém, eu tinha uma certa dificuldade em lidar com estas questões.
Anos e anos depois este muro não mais me serve de cadeira. O tempo também não me serve com tanta abundância mais. Aliás, o tempo em si não mudou, mas o tempo dedicado a determinadas coisas – novas ou velhas -, este sim, mudou e ainda tem mudado bastante.
Ao passar pelo lavador de carros, ele disse: “Oi, Thayla! Como vai?”
E, então, lá estava eu: assumindo o papel daquela criança, assumindo meu lugar naquele muro que, hoje, faz parte não apenas do meu prédio, mas, também, das minhas recordações, da minha ideia de mim mesma quando criança.
Estranhei o fato de que ele lembrara o meu nome. Era uma pessoa humilde, trabalhadora, que, com certeza, neste tempo todo, muito teve para pensar, para resolver, para viver. Isto me fez pensar nas semelhanças entre aquela criança Thayla e esta pessoa, de hoje, que é Thayla também. Isto me fez pensar, também, no vai e vem que nós representamos na vida das pessoas e no mesmo vai e vem que elas representam na nossa vida. Quem mais, em situação semelhante, conseguiria lembrar meu nome? Quem mais, em situação semelhante, seria ao menos capaz de ligar a minha fisionomia atual àquela que um dia me pertenceu? E quem, ainda, lembrará de mim daqui a uns anos? O que acontecerá com as pessoas que hoje fazem parte da minha vida e qual será a minha futura ligação, o meu futuro relacionamento com elas?

1 comment
  1. ju said:

    Tenho certeza que não quer a minha malévola opinião, mas não resisto. Esse texto aí, bem simplesinho, está bom de ler, tem algo bonito na revelação das recordações de infância e reflexões sobre o futuro de uma pessoa ainda tão jovem. Sem enrolações.
    Saudações desrespeitosas

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