Os inimigos.

O inimigo, sim, foi ele quem veio contra Ele, conforme lhe disseram.

E quem seria o inimigo? Somos todos, então, peças postas em movimento por questões invisíveis? Quem é este inimigo de quem nem ao menos temos um mínimo conhecimento? Somos surpreendidos por uma eterna luta, surgida antes de nós e propagada por uma posteridade distante mesmo do fim da nossa existência, da qual participamos sem saber de coisa e coisa alguma.

Não podemos pleitear um mínimo instante de desequilíbrio? Não temos direito a sentir dor, a sentir uma mínima amargura com nós mesmos e com uma circunstância ou outra que nos parece tão adversa? Parece-me que não. Parece-me que eles pensam que não.

O jogo de sentir e des-sentir, o experimentar do “belo” e do “feio”, ou seja, o reconhecimento do nosso ambiente interior e das influências exteriores está condenado frente à uma eterna necessidade de estabilidade.

Sim, devemos ser, estar e permanecer estáveis. O desequilíbrio é condenável. A luta das pulsões de vida e morte é renegada à uma questão qualquer de maldição e toda a infinidade de sentimentos que guardamos, infinidade completamente desconhecida, deve se resumir à aquilo que um dia alguém conceituou, deve preencher uma espécie de rol exaustivo, deve se resumir à um reduto eterno de felicidade, de bem estar. Afinal, conforme impõem alguns, faria sentido pleitear o direito de sofrer?

O inexplicável, explicado a partir da lógica do sagrado, pode motivar a felicidade, mas uma amargura qualquer não pode ser exteriorizada a partir de uma falta de causa; para a sua existência existe uma relação de causalidade necessária, a relação dada a partir do profano. A lógica do sagrado e do profano, estas nossas categorias tão atreladas a tantas das nossas ideias, condutas, construções, também está atrelada aos nossos sentimentos.  O nosso sentir deve ser construído necessariamente a partir de algo que nos é intangível, mas que não faz parte do conjunto de intangibilidades que temos dentro de nós.

Eu tenho um coração que sofre, eu tenho algumas dores, eu tenho alguns desamores. Todos temos. Eu carrego em mim um conjunto de coisas com as quais não sei lidar e eu amplio o conjunto destas coisas, torno-o eterno, admito dúvidas insanáveis em constante renovação. Todos carregamos, todos ampliamos. Eu quero apenas um espaço para sofrer, eu quero apenas um espaço para sofrer apenas com o sofrimento em si, e não com a obrigação de ter que renegá-lo, de ter que escondê-lo, de não poder tratá-lo como algo meu e ter que tratá-lo como algo que algo em mim implantou. Eu quero apenas este espaço, um espaço para uma certa imobilidade de vontades, para um remoer de pensamentos e de sensações. Eu quero, eu preciso. Todos precisamos.

 

 

Imagem: Dave Mckean. Um dos meus ilustradores favoritos.

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