O lugar de domingo.

Eles fazem seus sons logo às 8h da manhã, sons que crescem aos poucos  e com calma pelos cômodos da casa. Ainda enquanto seus sons se preparam em orquestra, surge a voz por cima dos ensaios e diz, já sob presa, que “é hora de ir”.

E sendo a última a me mover, sou a primeira a terminar.

Sem entender, logo sinto. Sinto a alternativa ao seguir, mas deixo novamente se fazer sozinho tudo o que se faz em dias como estes.

É neste meu partir que questiono: “o que me move?”. Questiono, mas movo.  Sem ter real percepção, ou ao menos admitindo não perceber qualquer coisa, sobre este mover e sobre os detalhes do caminho, mas me movo, chego.

Já nos poucos minutos portas à dentro, caem as palavras. “Submissão” é uma delas, sendo na verdade várias, várias. Nenhum grupo de sinônimos é suficiente quando a palavra que não participa do discurso aberto é o “convencimento”.

Teto, listras. Um exercício de contas sem usar os dedos. Uso cada parte de mim em cada canto daquele salão e diferença não mais faz o meu lugar.

E sem saber o que fazer com tantas frases, elas somem na minha distração. Quarenta minutos nunca são inteiros, ainda quando uma hora inteira são.

“Nada haver com maneiras! Tem, na verdade, haver com hábitos”.

“Não é fraqueza a humildade, a submissão”.

E lá novamente me percebo, novamente, após os minutos, fossem quantos fossem, de distração.

“Estamos aqui não apenas para nos mover, mas para mover outros, outros também”.

Assim como vamos, outros tantos devem ir? Mover, mover-se, fazer mover.

Quando tiro os nomes, as divindades, autores, quando retiro o que se põe à frente, quando se deixa revelar o que estrutura, quando acesso aquilo que é sem aqueles que fazem ser, percebo que este lugar de domingo é o lugar das segundas e terças. Certezas de todos estes dias perseguem umas às outras, ainda que nada sejam complementares. Se daqui deste domingo eles me dizem, de lá dos outros dias também o fazem. Se aqui me intimidam por espaço, lá me invadem, me cercam.

Jogue todos os outros fora, se renda. Multiplicidade é apenas incerteza e não há em ninguém tanto espaço. Diga de vez, diga agora, por onde; é uma questão de mera escolha.

Dizem que o suicídio é fato, dizem que as estruturas estruturam. Dizem que se impõe acima de tudo a economia, dizem que lá existem apenas ruas de outro. Dizem que traição é apedrejamento, dizem que a velocidade é relação distância e tempo. Há quem diga que tudo são meras categorias, abstrações, há quem diga que há concretude, salvação, esculhambação. Há o que há para toda e qualquer ocasião. E há, ainda, apenas quem diga “ou não…”.

(Rosetta, 1999, Jean-Pierre Dardenne and Luc Dardenne).

1 comment
  1. Shayene said:

    “Há quem diga que tudo são meras categorias, abstrações, há quem diga que há concretude, salvação, esculhambação. Há o que há para toda e qualquer ocasião. E há, ainda, apenas quem diga ‘ou não…'”.

    Sem palavras. Você as esgotou. No entanto me resta um suspiro. O suspiro de uma alma que ondem durmiu “desiludida” e acaba de despertar “aliviada” por descobrir: Existem mais pessoas que não são daqui!

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