Era 1999

Era 1999. O mundo lhe parecia uma outra coisa que não as atuais construções. No ano dos três números iguais, tudo ainda era possibilidade, e não uma coleção de fatos mal amados. Tudo era a história que escreveria, e não os momentos que lhe seriam jogados, que aleatoriamente viveria.

Em 1999 a menina olhava e para todos os lados via gente. Quando era natal,  a gente juntava um pouco de cada coisa, inclusive de gente mesmo, e esquecia as dificuldades falando engraçado, dividindo os mais bem feitos pratos, desembrulhando os presentes – desde que depois da meia noite. Quando páscoa, o tal momento se mostrava como tradição, assim como nos aniversários. Quando um dia qualquer, o momento se mostrava mesmo era como a vontade da gente de ser gente em conjunto o tempo inteiro, sem precisar de tantos motivos para seus instantes.

E naquele ano a menina foi, se jogou numa festa de aniversário. Criança, de saia branca, no meio de palafitas e lama, numa comum noite de final de julho. Era a Natália, ela se lembrou, que ficava um pouco mais velha, embora ainda fosse tão, mas tão pequenininha, como sempre foi. E lá estava a família da Natália, ao redor do seu vestido branco rodado enfeitado com o que mais havia de especial, comprido cabelo negro como a cor em si, e da enorme torta doce que serviria aos convidados, bem no meio da vila formada pelas várias casas de madeira que pertenciam às partes do inteiro da família, num mesmo grande terreno.

Acabou a festa. Ainda era cedo, ainda que para criança o cedo sempre pareça um tanto tarde, sendo o real tarde um intenso ato de coragem e desafio. E, então, no meio do caminho do pós final de festa, a menina ouviu: “parece que aconteceu algo em sua casa”…

Não havia nada a acontecer. Os dias eram regras assim, daquela forma, como deveria ser. A mãe penteou o cabelo, escolheu a roupa, e entregou à menina aquilo que seria o presente da Natália. Agora, de volta à própria casa, com uma Natália mais velha já para trás, a menina se perguntou: aonde estava a gente toda? Toda gente sumiu, assim, de uma vez só. E no lugar surgiram pessoas que ainda não eram gentes, já que vistas pela primeira vez. A menina sofria o encarar – aquele de que tudo ficaria quase bem, ainda que o tal tudo passasse a ser outra coisa. Havia um cheiro, estranho, e a música da novela de todas as noites, que não lhe saiu da cabeça. Até que de certa forma entendeu que aconteceu, ou que pelo menos começou a acontecer aquilo que se terminaria poucos dias depois, e que até aquilo que para crianças normalmente não se deixa acontecer, estava ali, representado pelo vazio.

 

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